sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Simples olhares I

São cinco da tarde e estou sentada aqui num banco de jardim, mergulhada num conjunto de pensamentos que se vão misturando com os das pessoas que passam... Chega a ter a sua piada estar aqui a observar-vos e mesmo não passando de meras suposições minhas estou a gostar daquilo que vejo... Há crianças que brincam umas com as outras, umas que riem até não poder mais, outras que estão mais sossegadas, tentando passar despercebidas. Daqui, posso ver também cafés cheios de gente que se delicía com as típicas conversas de café ou que simplesmente fica no seu canto a ler o seu livro ignorando toda a azáfama envolvente. Existem ainda, aqueles que andam de um lado para outro sem saber lá muito bem para onde ir e que se limitam a observar tal como eu... Deixando-me levar por esta melancolia, sou invadida pela diversidade que me rodeia e deixo-me ir... Deparo-me com mães a repreender os filhos, grupos de adolescentes a rirem enquanto passeiam, crianças imensamente felizes enquanto partilham um gelado, jovens ao telemóvel ou a ouvir música, pessoas a cumprimentarem-se e muitas outras pessoas que neste momento fazem parte desta minha imagem...Reparo também no enquadramento dos vários locais frequentados pelas pessoas e ainda no barulho citadino que parece não perturbar ninguém...nem o insistente buzinar dos carros leva a um único desviar de olhar... Eu, continuo aqui e sinto que ninguém repara no que estou a fazer, eu não passo de mais uma pessoa que pertence à imagem que eu própria estou a pintar tendo em conta os traços e os detalhes que me chamam à atenção e me deslumbram...
De repente, sinto-me a ser observada e nesse mesmo momento sinto-me obrigada a pousar o pincel e a desviar o olhar da grande tela que tenho à minha frente para te encontrar...após ter percorrido um movimento de 180 graus vi-te... eras alguém que me observava tal como eu... Como não te vi desde o inicio? Como é que não fazes parte do meu quadro? Como é que te deixei escapar? Trocamos olhares e de relance pareceu-me ver-te sorrir. Será que olhas mesmo para mim? Instantaneamente viro o meu corpo na direcção oposta e confirmo que nada se passa atrás de mim, só eu é que estou ali, tinhas que estar a olhar para mim...Mas o que é que estas a fazer? não desvias o olhar uma só vez e agora, que nos encontramos a olhar directamente um para o outro começo a ficar incomodada com tal intensidade...mas deverias incomodar-me? não suponho que não, não te conheço mas acho que já te vi em algum lado. Por momentos, fechei os olhos e quando voltei a abri-los tinhas-te aproximado de mim, não te ouvi, não pressenti movimento algum, como o fizeste? Agora, que te vejo mais de perto, tenho uma imagem mais nítida de ti, e sim, os teus olhos prenderam-se aos meus tal como os meus aos teus. Será que tiveste sempre aí? Onde é que eu já te vi? Quem és? questões como estas passavam à mil à hora na minha cabeça, queria as minhas respostas... E foi nesse momento que o teu rosto deu lugar àquela pintura que à pouco me vislumbrava e que agora não passava de uma vulgar tela em branco. Fechei novamente os olhos com a esperança de quando os abrisse te aproximasses novamente de mim,..Abro-os? não senti, nem ouvi nada outra vez... será que já estás aqui ao meu lado? E se já não estiveres aí?...foi então que abri os olhos e.....